sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O que ela quer?



"O que ela quer é falar de amor. Fazer cafuné, comprar presente, reservar hotel pra viagem, olhar estrela sem ter o que dizer. Quer tomar vinho e olhar nos olhos. Ela quer poder soprar o que mora dentro, o que não cabe, que voa inocente e suicida. Ela quer o que não tem nome. Quer rir sem saber de quê, passar horas sem notar, quer o silêncio e a falação. Ela quer bobagem. Quer o que não serve pra nada. Quer o desejo, que é menos comportado que a vontade. Ela quer o imprevisto, a surpresa, o coração disparado, o medo de ser bom. Quer música, barulho de e-mail na caixa, telefone tocando. Ela tem muito e quer mais. Quer sempre. Quer se cobrir de eternidade, quer o oxigênio do risco pra ficar sempre menina. Ela quer tremer as pernas, beijo no ponto de ônibus e a milésima primeira vez. Quer cor e som, lembrança de ontem, sorriso no canto da boca. Ela quer dar bandeira. Quer a alegria besta de quem não tem juízo. O que ela quer é tão simples..."


(Cristiana Guerra)

No encontro de nossos olhos..




"Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água."

Julio
Cortázar, in “O jogo da amarelinha”

Persona



Não, não pretendo falar do filme de Bergman. Também emudeci ao sentir o dilaceramento de culpa de uma mulher que odeia seu filho, e por quem este sente um grande amor. A mudez que a mulher escolheu para viver a sua culpa: não quis falar, o que aliviria o seu sofrimento, mas calar-se para sempre como castigo. Nem quero falar da enfermeira que, se a princípio tinha a vida assegurada pelo futuro marido e filhos, absorve no entanto a personalidade da que escolhera o silêncio, transforma-se numa mulher que não quer nada e quer tudo – e o nada o que é? e o tudo o que é? Sei, oh sei que a humanidade se extravasou desde que apareceu o primeiro homem. Sei que a mudez, se não diz nada, pelo menos não mente, enquanto as palavras dizem o que não quero dizer. Também não vou chamar Bergman  de genial. Nós, sim, é que não somos geniais. Nós que não soubemos nos apossar da única coisa completa que nos é dada ao nascimento: o gênio da vida.
Vou falar da palavra pessoa, que persona lembra. Acho que aprendi o que vou contar com meu pai. Quando elogiavam demais alguém, ele resumia sóbrio e calmo: é, ele é uma pessoa. Até hoje digo, como se fosse o máximo que se pode dizer de alguém que venceu numa luta, e digo com o coração orgulhoso de pertencer à humanidade: ele, ele é um homem. Obrigada por ter desde cedo me ensinado a distinguir entre os que realmente nascem, vivem e morrem, daqueles que, como gente, não são pessoas.
Persona. Tenho pouca memória, por isso já não sei se era no antigo teatro grego que os atores, antes de entrar em cena, pregavam ao rosto uma máscara que representava pela expressão o que o papel de cada um deles iria exprimir.
Bem sei que uma das qualidades de um ator está nas mutações sensíveis de seu rosto, e que a máscara as esconde. Por que então me agrada tanto a idéia de atores entrarem no palco sem rosto próprio? Quem sabe , eu acho que a máscara é um dar-se tão importante quanto o dar-se pela dor do rosto. Inclusive os adolescentes, estes que são puro rosto, à medida que vão vivendo fabricam a própria máscara. E com muita dor. Porque saber que de então em diante se vai passar a representar um papel é uma surpresa amedrontadora. É a liberdade horrível de não ser. E a hora da escolha.
Mesmo sem ser atriz nem ter pertencido ao teatro grego – uso uma máscara. Aquela mesma que nos partos de adolescência se escolhe para não se ficar desnudo para o resto da luta. Não, não é que se faça mal em deixar o próprio rosto exposto à sensibilidade. Mas é que esse rosto que estava nu poderia, ao ferir-se, fechar-se sozinho em súbita máscara involuntária e terrível. É, pois, menos perigoso escolher sozinho ser uma pessoa. Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar-se e representar o mundo, o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. A pessoa é.
Se bem que pode acontecer uma coisa que me humilha contar.
É que depois de anos de verdadeiro sucesso com a máscara, de repente – ah, menos que de repente, por causa de um olhar passageiro ou uma palavra ouvida – de repente a máscara de guerra de vida cresta-se toda no rosto como lama seca, e os pedaços irregulares caem como um ruído oco no chão. Eis o rosto agora nu, maduro, sensível quando já não era mais para ser. E ele chora em silêncio para não morrer. Pois nessa certeza sou implacável: este ser morrerá. A menos que renasça até que dele se possa dizer “esta é uma pessoa”. Como pessoa teve que passar pelo caminho de Cristo.

Clarice Lispector (1920-1977)

Amanhã, apaixone-se!


*Um dos mais lindos e verdadeiros vídeos que já vi!
Que todos nós possamos nos apaixonar por algo que nos faça vibrar e viver com o ardor e a intensidade necessária pra sermos felizes!

...Coração tranquilo...




“Tô morando, trabalhando, estudando e amando. Esses são os quatro foles da minha vida, no momento, e sobre cada um deles eu teria milhares de páginas a preencher. Sei lá menina, tá tudo tão legal, e um legal tão batalhado, um legal merecido, de costas e pernas doendo, mas coração tranquilo.


(Caio Fernando Abreu)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

"Não existe escombro que não possa servir de pedra novamente..." (Carpinejar)

"Tenho me sabido tão mais. Tenho me prestado tanta atenção. Tenho gostado da minha companhia, sabe? Pra variar. Pra variar, depois de anos e anos. Tenho mais consciência dos meus pensamentos, sentimentos e movimentos. Tenho mais consciência até da minha inércia. Sei o que me faz bonita e o que é feio em mim. Sei o que me alegra e o que me dói. E tudo me completa, me constrói, me faz maior, melhor. É um tempo de morar aqui dentro e ser um bom lugar. Pra mim."

Estive pensando por esses dias... Perder sempre é doloroso, mas por muitas vezes também é muito construtivo. Sim, é sábio da vida nos impor perdas, sejam elas na vida profissional, ou na maioria das vezes, na vida pessoal. A perda de um grande amor então!? Nossa, parece que não se sobreviverá... Ainda mais depois de tanta luta... Você conhece aquela pessoa maravilhosa, que lhe enche de vida, devolve o brilho em seus olhos, o sorriso em seus lábios, enfim faz a terra árida de seu coração se tornar fértil à semente do amor... e Tudo germina, floresce com ares primaveris... E você pensa: dessa vez vai dar certo, porque afinal a recíproca é verdadeira... Tudo o que ele desperta em mim é visível aos olhos de todos que desperto nele também! No entanto, como diria nosso querido guru Caio Fernando Abreu "De repente a coisa começa a desacontecer." E nada que você tente fazer é o bastante... Você tenta ser a super-mulher. Que mulher nunca tentou ser assim!? A melhor amiga, a psicóloga, a melhor amante, a mais linda, inteligente, forte, super bem humorada, e compreensiva das mulheres... Tenta mostrar tudo o que é capaz, todas as suas inúmeras facetas.. Mostrar o quão grande é o AMOR que sente por ele... Sua vida passa a girar em torno dele, e se esquece de si, do seu amor-próprio, de sua vida que passa  e TUDO ISSO EM VÃO...
A partir daí você surta, você não entende... Você se pergunta todos os dias o que há de errado em mim, em vez de O QUE HÁ DE ERRADO COM ELE??? 
Porque se menospreza-se, sempre acredita-se que o problema está em você. Eu que não sou e nem serei boa o bastante para ele, eu que sou imperfeita, eu que não soube amar, eu, eu, eu, eu... E assim gerei o pensamento de que eu não era mulher o bastante para nenhum homem. Eu não era atraente, minha inteligência não servia de nada, meu bom humor e perspicácia só servira pra mim mesma e fazia qualquer homem correr... Minha auto-confiança e auto-estima foram a zero!
Mas nada como o tempo! Não há aliado mais poderoso, esse através dos dias nos mostra a verdade... O que vivi e aprendi nesses últimos tempos pós-fracasso-amoroso não há dinheiro e nem, acreditem, amor-correspondido-sob-condições-degradantes, que pague. 
Através de minhas experiências pude recuperar tudo o que perdi sobre mim mesma...  
Primeiramente, o tempo lhe ensina que não se morre de amor, ou melhor, da falta de um amor. Você passa perto, deprime-se, não quer ver ninguém, a dor é tão imensa e intensa que você se sente sem ar, sem vida, seu coração parece que nunca mais baterá normalmente, tamanha a força esmagadora que o comprime, é tanta dor que chega a ser física. Você não sai, não conversa, não come, só sente a FALTA, falta de um pedaço seu, o pedaço de sua alma. O seu pensamento é 24h naqueles momentos perdidos, em tudo que foi bom (em sua cabeça) e que você nunca mais terá.
Mas os dias se seguem e você acostuma com a dor, afinal adaptação é a lei natural dos seres, e aprende a viver com ela e apesar dela.
Retoma a vida, meio forçada, mas volta a manter contato com o mundo, e com as pessoas. Ah, os amigos... Como somos ingratos com eles quando estamos amando alguém. Nos isolamos e dedicamos nossa vida ao ser amado. Ai, quando somos expulsos do paraíso, a quem recorremos? Aos bons e velhos amigos, ou quando é muito tarde pra isso, fazemos novas amizades!
E isso me salvou! Meus amigos, devo tudo a eles nesse período! Ninguém que se dizia me amar quis saber se morri ou sobrevivi a sua falta, ou quão agoniante foram meus dias em sua ausência, mas meus amigos me devolveram a luz!
E em cada saída você se depara com o novo, experiências novas... Você começa tímida, ou mesmo procurando formas que lhe cessem os pensamentos e dores passadas, tudo é meio forçado, a alegria ainda não é genuína, mas como dizem: “água mole em pedra dura tanto bate até que fura.” Então... Uma hora você começa a se sentir melhor e se vê mais feliz. Começa a notar que novos olhares focam em você, que você é capaz de atraí-los.. Claro, seu coração ainda é daquela pessoa, afinal sentimentos quando verdadeiros não morrem da noite para o dia. Mas, alguém chega e lhe diz: “Poxa, sua alegria é contagiante!”, “Nossa, como você é linda!”, “Que sorriso o seu!”, “O que uma mulher tão interessante e tão inteligente está fazendo solteira ainda!” 
Então, você começa a notar que o problema não era com você e sim com o outro que não soube dar valor ao que encontrara em você. E você passa a se valorizar mais. Você ergue a cabeça, veste o amor-próprio há muito esquecido e começa a mudar a si.
De início você muda o visual, muda os cabelos, coloca um brilho no olhar, um sorriso resplandecente nos lábios e entusiasmo no modo de ser, ama cada nova roupa e sapato que adquire. Batalha a cada dia, trabalha, luta pela sua independência, afinal a vida cotidiana não perdoa e é sempre dura.
A cada nova conquista você recebe um novo brilho, uma nova luz irradiada da sua áurea, o que reflete em sua auto-confiança. E quando menos se espera você se torna a mais cativante e linda das mulheres!
Não há clínica de estética, nem salão de beleza, nem mesmo dinheiro que possa lhe deixar mais bela e atraente do que a renovação de sua alma, de sua auto-estima e vontade de viver!
Você pode estar com a roupa que for, até de uniforme de trabalho! Não é só seu modo de sentir que muda, seu modo de falar, seu modo de olhar, de caminhar, transformam-se. Todos os olhos se voltam para você onde é que você esteja, seja atravessando uma rua ou dando o ar da graça em um barzinho. Isso transparece, você transpira e inspira magnetismo!
E tudo começa a ser um ciclo, uma coisinha puxando a outra, e tudo começa a ir bem, a acontecer... Sucesso na vida profissional, ainda não se chegou aonde se quer, mas as coisas vão se encaixando. Você começa a ter opções na vida pessoal. O que antes era um deserto imenso, agora é um campo fértil, cheio de possibilidades, onde você escolhe... Sim, você agora tem o poder de eleger quem lhe agrada, com quem quer criar laços ou não, com quem vale a pena realmente compartilhar suas inúmeras qualidades e conquistas!
E é assim que atualmente me encontro, num estado de graça... Tenho certeza dos meus potenciais como mulher, valorizo-os a cada minuto. Cultivo minha alma e mente, que sempre foram primordiais para mim. E tenho a certeza que a minha vida apenas começou, tenho muito a buscar e a trilhar, e não será qualquer um ou qualquer queda que irá me embrutecer. Só estará comigo quem eu julgar que valha a pena e que queira ao meu lado perpetrar grandes coisas, construir NOSSA VIDA! Se não for assim, não quero mais! Falar não e ser dura quando se deve ser, valorizar-se como mulher e ser humano, ter princípios e objetivos firmes, enfim se fazer respeitável, sem perder a doçura na alma, são conquistas que só se aprende na prática pela tortuosa e incerta estrada da vida, com seus terrenos planos e acidentados. E agradeço a Deus e a todos que me fizeram a mulher que sou e parte do que ainda serei, agradeço, principalmente, a quem me fez sofrer um dia, pois sem essas dores não vislumbraria o que poderia ser aprimorado em mim e não poderia estar pronta para buscar o melhor para mim.


(Juliana Alves)


"Desaprender para aprender. Deletar para escrever em cima. (...) Basta desaprender o receio de mudar.”


(Martha Medeiros)

Em brasas...



"Não sei se é do fogo ou se do fundo dos teus olhos que vem o calor. 
Ouço o crepitar da lenha não sei se dentro de mim, não sei se dentro de ti.
Tenho o rosto escaldado, a pele em labaredas. 
As tuas mãos são o lume e o meu corpo a madeira ansiosa pelo tua chama. 
A tua língua de brasa queima-me a pele e o teu odor o meu alento. 
Deixa-te ficar aqui no meu colo, Meu Amado, 
deixa ser o ar que te dá vida e a terra que te dá calma."  

(GHADA AL-SAMMAN)

Coração Primaveril

  Das invernais madrugadas não me recordo mais. Senhor dos tempos da ventura despiu-me de toda a névoa, vestiu-me de amanhecer...