domingo, 17 de abril de 2011



Sou dessa leva de gente que tem como sina ver demais. Sentir demais. Amar quase do tamanho do amor. Traço de nascença, uma estranha dádiva que, durante temporadas, pra facilitar a própria vida, egoísmo que seja, a gente tenta disfarçar de tudo que é maneira que aprende. Mas não tem jeito, nunca terá, nascer assim é irremediável, o que é preciso é desaprender o medo.

Por tudo o que é mais sagrado nesse mundo e em quaisquer outros que não tenho certeza se existem, mas suspeito, muitas vezes eu desejei não ver tanto. Criança, quando senti isso sem saber palavras, inventei minha miopia. Não adiantou: o encurtamento dos olhos é só do lado de fora, por dentro eu vejo muito comprido. Alguns sentem vida, sentem beleza, sentem amor, com doses de conta-gotas. Eu, não: é uma chuvarada dentro de mim.

Que os sensíveis sejam também protegidos. Que sejam protegidos todos os que veem muito além das aparências. Todos os que ouvem bem pra lá de qualquer palavra. Todos os que bordam maciez no tecido áspero do cotidiano. Todos os que propagam a bondade. Todos os que amam sem coração com cerca de arame farpado. Que sejam protegidos todos os poetas de olhar e de alma, tanto faz se dizem poesia com letras, gestos, silêncios ou outro jeito de fala. Que sejam protegidos não por serem especiais, que toda vida é preciosa, mas porque são luzeiros, vez ou outra um bocadinho cansados, no escuro assustado e apertado do casulo desse mundo.

(Ana Jácomo)

Ser, às vezes Sangra...

(Clarice Lispector)

Exatamente assim...



"Não nasci para ser entendida, nasci para ser sentida...
Nasci para usar e abusar dos cinco sentidos.
Não nasci para entender, nasci para sentir, intuir..."

(Fernanda Barcellos)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Não me Deixes


Debruçada nas águas dum regato
A flor dizia em vão

À corrente, onde bela se mirava…

“Ai, não me deixes, não!”


“Comigo fica ou leva-me contigo

“Dos mares à amplidão;

“Límpido ou turvo, te amarei constante;

“Mas não me deixes, não!”


E a corrente passava; novas águas

Após as outras vão;

E a flor sempre a dizer curva na fonte:

“Ai não me deixes, não!”


E das águas que fogem incessantes

À eterna sucessão

Dizia sempre a flor, e sempre embalde:

“Ai, não me deixes, não!”


Por fim desfalecida e a cor murchada,

Quase a lamber o chão,

Buscava inda a corrente por dizer-lhe

Que a não deixasse, não.


A corrente impiedosa a flor enleia,

Leva-a do seu torrão;

A afundar-se dizia a pobrezinha:

“Não me deixes, não!”


(Gonçalves Dias, in Gonçalves Dias: Antologia, por Maria Antonieta Vilela Raymundo)



**Às vezes queremos tanto algo, ou que esse algo não nos abandone, que somos cegados, e não vemos que isso pode ser a nossa destruição... Então, deixemos o que for de ir, que vá... Pois o que tem que ficar, o que tem que ser, coisa ou pessoa não se vai completamente, e tem muita força para acontecer.**

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Ah! Bruta flor do querer...



 
Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

(...)
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em ti é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente impessoal

E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim...

(O Quereres  - Caetano Veloso)

terça-feira, 12 de abril de 2011

Erótica é a Alma...



Não foi à toa que Adélia Prado disse que "erótica é a alma"
Enganam-se aqueles que pensam que erótico é o corpo.
O corpo só é erótico pelos mundos que andam nele.
A erótica não caminha segundo as direções da carne. 
Ela vive nos interstícios das palavras. 
Não existe amor que resista a um corpo vazio de fantasias. 
Um corpo vazio de fantasias é um instrumento mudo,
do qual não sai melodia alguma. 
Por isso, Nietzsche disse que só existe uma pergunta a ser feita quando se pretende casar: 
"continuarei a ter prazer em conversar com esta pessoa daqui a 30 anos?"

(Rubem Alves)
 
"O medo sempre me guiou para o que eu quero. 
E porque eu quero, temo. 
Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou. 
O medo me leva ao perigo.  
E tudo o que eu amo é arriscado."

(Clarice Lispector)

Coração Primaveril

  Das invernais madrugadas não me recordo mais. Senhor dos tempos da ventura despiu-me de toda a névoa, vestiu-me de amanhecer...