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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

“Com as perdas só há um jeito: perdê-las.” (Lya Luft in: Para não dizer adeus)



Sol que se fez chuva dentro de mim. Brisa que me desperta como uma ventania pronta pra despentear meus cabelos, acalma–me o coração. Ainda é cedo, o dia permanece escuro, o sol ainda descansa. O hoje chegou ligeiramente, sentou–se ao meu lado e eu ainda teria que esperar o sol dar graça ao dia, aquecer a alma, aquecer a vida. Lá fora, vento. Alguns ainda conversam sobre a noite passada, a ilusão que viveram ainda está acordada e só adormecerá depois de uma xícara de café fortíssimo. Meu estômago vive de perto o vazio dos dias. Nada cabe em mim, nem dentro nem fora, só ao lado e bem distante. Visto o meu melhor beijo, o meu melhor sorriso. Visto a minha solidão, faço–a minha válvula de escape e caminho de encontro ao fim, falta pouco. Deixo as ondas baterem nas pedras, ondas que trazem o passado junto às conchas e que embora grande seja o peso, me acarinham o espírito. Contemplo a minha alma refletida na areia, criando contraste com a água límpida que toca meus pés. Cheguei ao fim, minhas pernas estão cansadas e o meu coração repleto de satisfação – sozinho. E como se não me bastasse estar plena de tudo, comigo mesma e apenas, reencontro o mar que testemunhou o meu maior contentamento. Me transporto pra você novamente numa tentativa quase estúpida de tirá–lo da mente. Um passado abraçado ao presente, um segundo suplicando certezas e eu me dispensei de qualquer loucura que me envolvesse novamente naqueles braços. O amor te deixava mais gentil, sua alma saltava dos olhos e corria de encontro aos meus cabelos, a minha alma. Seria perfeito se não fosse humano, se eu não te amasse assim tão humanamente sem medida, irremediável. A música toca suave, deita na minha alma dançante. Você era a plenitude dos meus dias exaustos e repletos de tanta razão, mas, nada coopera com a onda do amor quando o amor não se permite ser onda e nada colaborou pra que eu permanecesse fora de mim, dentro de ti – navegando. E ainda que eu sinta você beijar minha ilusão enquanto deito na areia, é tolice acreditar no meu jeito desumano de roubar do outro o que nunca coube em mim. Nasci pra absorver a vida enquanto a fonte se mantém inesgotável, não nasci pra transbordar um viver que não é meu. Enquanto ao amor, eu escrevo–o e apago. Navego de volta ao meu ponto de partida. Despida, caminho e vivo num indo e vindo infinito de amar você. Que o mar me confie o prazer de pertencer apenas à palavra viva, a vida que vivo e amo enquanto a razão adormece, enquanto o nosso amor padece, enquanto eu finjo escrever o que minha poesia carece: você!


(Priscila Rôde)

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